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A escolha de Olivier

Luis Fernando Verissimo

Plim, plim, plim, plim, plim. O som cristalino de uma faca batendo no lado de um copo. Sinal de que a) os copos em que a condessa servira o vinho do seu chateau aos 10 convidados ainda eram de cristal, apesar das notícias sobre a sua ruína e b) a condessa ia falar. Todos ficamos quietos, menos o banqueiro alemão, que era surdo, e cuja frase “O pudim estava um fracasso” alçou voo no silêncio como uma águia solitária no vácuo de um penhasco.

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“Obrigado Otto”, disse a condessa. “Você gostará de saber que já despedi o meu doceiro. Aliás, despedi todos os meus empregados, menos um. Vocês devem ter notado que, depois de servirem a sobremesa, os garçons desapareceram. Não há mais ninguém na cozinha. A esta hora estão todos na estrada para a cidade, contando o dinheiro da indenização e me rogando pragas. A casa está vazia. Só ficamos nós, cavalheiros. E os fantasmas, claro. E este senhor triste de pé ao meu lado. O que abriu a porta para vocês, serviu o vinho e comandou, com a sombria discrição de sempre, o serviço durante o jantar. Meu mordomo, Olivier”.

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O banqueiro alemão pediu ao francês sentado ao seu lado, que era o fornecedor de garrafas para os vinhos da condessa. “O que ela disse?” “Só ficamos nós e os fantasmas”, disse o francês. “Asma?!” estranhou o alemão. “Quem está com asma?” A condessa estava apresentando o homem triste. “O Olivier já era mordomo do meu sogro e do meu marido. Acompanhou o esplendor e a decadência da nossa família com a mesma cara lúgubre. Nunca deu um palpite ou fez um comentário, mas foi um estudioso da nossa derrocada. Um observador melancólico do nosso auge e do nosso fim. Ele me ajudou a preparar este, esta... Como a chamaríamos, Olivier? Cerimônia?”

“Desenlace”, disse Olivier.

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“Este desenlace. Convidei-os, senhores, para o desenlace de uma longa história de paixão, desencanto, apogeu e declínio que termina, esta noite, com um pudim apropriadamente fracassado. Convidei-os para o último ato”. A condessa levantou-se da sua cadeira e propôs: “Cavalheiros, um brinde!”. Todos se levantaram, menos o alemão, que ainda estava confuso. Asma? Quem tinha asma? Finalmente o alemão também se levantou e ergueu se copo. Um brinde!

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“Às três coisas que nos reúnem nesta mesa. Em primeiro lugar, nossa devoção ao vinho deste chateau, que vocês bebem, e amam, há tantos anos. Em segundo lugar, à ajuda que me ofereceram para manter a produção do vinho depois da morte do conde, mesmo sabendo que o chateau estava em crise. A ajuda pessoal que deram contra o melhor juízo das suas instituições. Os empréstimos que você me fez com seu endosso particular, Otto, depois que seu banco cortou meu crédito. As garrafas que você continuou a me entregar, sob sua responsabilidade, querido Pierre, quando sua fábrica as negou. Os empréstimos generosos e desautorizados e sem registro que todos fizeram, confiando em mim, apenas para que o vinho que todos amamos continuasse a ser produzido. E um brinde à terceira coisa que nos une aqui, hoje, nesta noite de remorso e revelações. Ao dinheiro. Talvez o elo mais forte entre nós, pois nos tempos em que vivemos nenhuma união é mais vital do que a de devedores, no caso eu, e credores, no caso vocês. Cavalheiros: ao bom vinho e aos amigos. E ao dinheiro, sem o qual não há prazer nem amizade”.

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Todos beberam dos seus copos. Terminado o brinde, a condessa continuou de pé na cabeceira da mesa. Disse: “E agora, a revelação. A crise do chateau é terminal. Não tenho como continuar a produzir o vinho e pagar minhas dívidas. As únicas soluções são eu desaparecer do chateau ou vocês desaparecerem da minha vida. Vocês devem ter notado que Olivier me servia de vinho de uma garrafa separada. O meu vinho estava envenenado, ou o de vocês. Deixei a decisão para o Olivier. De qualquer maneira, o veneno fará efeito em pouco tempo. Só nos resta esperar para saber qual foi a escolha de Olivier”.

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A condessa continuou. “Nosso futuro depende do tipo de homem que é o Olivier. Ele é o autor intelectual deste nosso pequeno tableau moral e, como todo autor, tem o direito de decidir seu final e o destino dos seus personagens. Eu nunca soube bem o que Olivier pensava de nós, ou pensa da vida. Quem se interessa pela opinião dos empregados? Mas agora vamos descobrir”. E a condessa sentou-se para esperar o efeito do veneno, no que foi imitada pelos outros em diferentes estados de incredulidade e consternação.

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Continuou: “Se a envenenado for eu, significará que o Olivier nunca aprovou o que eu e a minha classe representamos, ou me perdoou por ter jogado fora uma tradição familiar e acabado com o chateau, e com o seu emprego. Sua decisão será o reconhecimento do fim definitivo de uma era que não merecia sobreviver. Se os envenenados forem vocês, significará que o velho Olivier estará condenado à dependência de tudo, inclusive o prazer e a amizade, no vulgar dinheiro, e me liberando para começar outra vida, virtuosa e sem dívidas, talvez no Oriente. Mesmo levando em conta o estorvo de ter que se livrar de dez corpos, e decidir o que fazer com os carros estacionados lá fora”.

De pé ao lado da condessa, Olivier continuava impassível.

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“O que está acontecendo?” perguntou o alemão que não ouvia nada ao francês. “Nós podemos ter sido envenenados”, respondeu o francês. O alemão bateu na mesa e disse: “Eu achei que aquele pudim estava com um gosto estranho!”.


Domingo, 31 de outubro de 2004.



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